m Attemborrow, num correr de casas brancas, no final de uma ladeira gramada e logo após a oficina de Forgeron de Nonsens – o ferreiro francês, especializado em artefatos de madeira e espetos de pau – fica a casa do franzino Richard, um garoto de vida simples e temperamento minimalista. O que poucos entendem são alguns gostos peculiares do menino. Seu alimento favorito, por exemplo, é uma combinação nada típica: bolo de fubá, recheado com pasta de kiwi, ovos de águia careca – criadas em laboratório – e creme de angú, coberto com uma espessa camada de sal grosso. Não se tem notícia da origem desta exótica guloseima. Entretanto, Richard se acostumou à iguaria e afirma que dela obtém uma força extra.
Era manhã de segunda-feira e Richard se aprontava para ir à escola. Depois de tomar o café da manhã e comer um generoso naco de “Bolo Kwinacht” – como ele o chamava – se levantou da mesa, rapidamente, notando que já estava atrasado. Com a mochila nas costas, despediu-se de todos e saiu cantarolando uma música típica, em attemborrownês.
Enquanto caminhava, pensava em Vivi Lábios de Iogurte, sua namorada de cabelos lisos e negros, olhos castanhos amendoados e boca com sabor de morango silvestre. Começou a pensar nos felizes momentos que passavam juntos, nas coisas que conversavam debaixo dos pés de nectarina e na tarde do domingo anterior. Ah! Como foi boa a tarde daquele domingo.
Distraído com todas aquelas caraminholas, Richard nem se deu conta de que algo não estava certo na estação de fornecimento de energia de Attemborrow. Uma obra gigantesca, num dos geradores auxiliares que controlavam o campo magnético, fez com que o garoto caísse num buraco e ficasse exposto aos intensos raios elétricos.
Confuso, a única coisa que veio em sua mente, foram as palavras de um pergaminho muito antigo, encontrado próximo dali e que a anciã grisalha estava tentando traduzir. Erguendo suas mãos para fora da cova, depois do solavanco, repetiu aquilo três vezes, com uma voz pastosa e sonolenta. E não se lembrou de mais nada.
- Acorde! Você não é mais uma pessoa comum. Você acordou para uma nova vida! Seu nome será lembrado por todas as gerações.
Abrindo os olhos, Richard se achou a mais perturbada das criaturas. Afinal de contas, estava ouvindo vozes num gerador. Apesar de tudo e crendo que aquela situação bizarra poderia amenizar suas dores, resolveu retrucar, para ver o que aconteceria. Porém, antes que pudesse pensar no que diria, caiu em si.
- Nova vida? Isso é nome de funerária. Quer dizer que… Eu morri? Só pode ser isso. Eu morri! Oh, céus!
- Acalme-se, meu jovem! – continuou o gerador – Você está mais do que vivo. Levante-se, pegue a sua Ikeman e salve todos os necessitados, das garras do mal!
- Ikeman? Mas o quê, diabos, é isso? Necessitados? Garras do mal?
- Isso mesmo! De agora em diante, você será Super Richard! Sua força estará na energia elétrica e seu símbolo será o Ohms, que brilhará em seu peito sempre que estiver lutando. Para ajudá-lo nas missões, levará dentro de sua mochila – Ikeman – todos os aparatos necessários aos combates. E você deverá vestir isso…
- Uma cueca roxa?
- Não. Uma sunga lilás! Ela funcionará como uma bateria, quando precisar lutar em situações onde não haja energia para liberar seus poderes. Ah! Ela acende e toca música, na presença do inimigo.
- Céus!