noite caía e, embora fosse verão, o clima no Vale estava assustadoramente frio. Enquanto o povo colocava toda a culpa no El Niño – o maior fenômeno mexicano, depois do Chaves – Vovó Attemborrow e Vivi dos Palmares não conseguiam se aquecer, mesmo usando todos os cobertores de pele de lhama. Poucos eram os corajosos que permaneciam no pátio, em meio à neblina, comendo nectarinas e ouvindo as histórias da anciã.
- Ô, Richard! Você bem que podia trazer mais um pouco de lenha para alimentar nossa fogueira!
- Mas Vivi! Isso não é hora de rachar lenha na mata! É muito perigoso! Se esqueceu do corpo seco que vive lá?
- Ah, lá vem você com essa história de corpo seco! Tudo bem. Considere que não há mais nada entre nós! Imagine. Me deixar morrendo de frio, por causa de um troço que nem existe. Uma lenda! Francamente…
Vivi sabia ser persuasiva, em determinados momentos. E se havia uma coisa que abalava Richard, era esse tipo de choradeira.
- Tá bom, tá bom! Eu vou. Mas pare com esse drama de novela mexicana!
Ainda bem que Richard era precavido. Antes de sair, vestiu sua sunga lilás e pegou a Ikeman. Por via das dúvidas, resolveu levar uma fatia de Kwinacht, temendo se perder e ficar sem ter o que comer.
Feliz e sorridente, caminhou em direção ao bosque escuro. Tudo bem. Ele não estava tão feliz assim. Estava temeroso, nervoso, suando frio e trêmulo – aquele sorriso era só uma tentativa para enganar um eventual inimigo. Iluminava o caminho com sua “lanterna especial do Rambo”, que ganhara num concurso de um supermercado.
- Diacho! As árvores por aqui não estão boas para lenha! Vou ter de me aprofundar mais na floresta adormecida. Ó xente, meu love!
Richard olhava para trás, a cada dez segundos. O silêncio era total e a sensação de estar sendo observado, o deixava inquieto. Todas as árvores estavam úmidas e o cheiro de terra nolhada aguçava os piores pensamentos no rapaz.
- Acho que vou voltar e dizer que não encontrei nada. Ora, mas não posso fazer isso, se não quiser que riam de mim… que me chamem de covarde. Vou caminhar mais um pouco, mesmo que as joaninhas sejam insetos que não se chamam Joana! Mesmo que as uvas não sejam frutas do conde!
Richard costumava dizer frases sem nexo, todas as vezes que precisava de algum tipo de incentivo ou coragem.
Pobre moço. Temia todas as lendas da região – principalmente aquelas contadas por Vovó Attemborrow. Mas o que mais lhe metia medo, depois do chupa cabras, era o tal corpo seco.
A lenda diz que o tal corpo seco é uma espécie de guardião da floresta. Um zumbi, com aparência humana, extremamente magro – apenas com uma fina camada de pele rígida, cobrindo o esqueleto. Seus olhos são fundos e suas unhas imensas. Dizem que é leve, rápido e terrível. A história ainda diz que os poucos mal afortunados que virem o tal bicho, devem pegá-lo, colocá-lo nos ombros, atravessar um rio e um morro. Chegando lá, precisam dizer: “Corpo seco, eu fiz a minha parte! Agora me deixe em paz!”, caminhando de volta ao local onde o gurdião apareceu, sem olhar para trás.
…
Enquanto Richard caminhava mata adentro, Cazuza fazia experiências consigo mesmo, lá no pátio do Vale, comendo cabelo e bebendo shampoo. Vivi esperava por seu heróico namorado, em companhia de Vovó Attemborrow, perto da fogueira quase extinta. Os filósofos da Gruta 51 já se encontravam totalmente embriagados e não falavam coisa com coisa… E quem não estava por ali, dormia feliz aproveitando o frio.
…
Depois de dar duas machadadas numa árvore que julgava boa para lenha, Richard notou que sua sunga lilás estava brilhando e tocando música. A luz de sua lanterna já estava muito fraca. De repente…
- Diacho! O que é isso?! Quem é você?
(continua…)